Filho do fundador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, Kim Jong-Il tinha um temperamento forte, era um nacionalista e não se curvava às exigências imperialistas dos EUA e UE. Essas características o "elevaram" ao patamar de líder odiado pelo império - a exemplo de Ahmadinejad, Fidel e Chávez - e como tal era demonizado pela mídia ocidental, sempre tratado pelos clichês de sempre: "louco", "ditador", "perigoso", "comunista", "egocêntrico", etc.
Gostaria neste artigo de avaliar o discurso emitido pelo "braços simbólico" dos inimigos de Kim Jong-Il, ou seja, a grande mídia ocidental.
Colhi alguns fragmentos do que foi dito pelos noticiários aqui no Brasil, a respeito da Morte de Kim Jong-Il. As ênfases são minhas e servem para marcar o que irei avaliar aqui.
"Kim Jong-Il era líder de um dos países mais reclusos do mundo e embora fosse adorado pelo seu povo falhou em alimentá-lo, já que a economia norte-coreana está em frangalhos e a maioria do povo passa fome" (Band News)
"A propaganda comunista transformou Kim Jong-Il em um líder adorado, mas ele era visto pelo ocidente como um homem perigoso, governante de um país que tem armas nucleares" (Jornal da Record)
Os fragmentos acima já dão o tom do discurso adotado pela imprensa brasileira, consonante com o discurso do imperialismo. Vamos a alguns questionamentos que poderiam ter sido feitos pela imprensa:
1) Se a Coréia do Norte é assim tão reclusa, e não é fácil andar e fazer turismo por lá, como é possível afirmar categoricamente que a maioria da população passa fome? Imagens/fotografias de pessoas esqueléticas podem ser feitas em qualquer lugar do mundo.
2) Se a maioria dos norte-coreanos passam fome, por que adoravam tanto Kim Jong-Il. Seria a tal "propaganda comunista?". Veremos isso mais na frente.
3) A economia da Coréia do Norte está em frangalhos por culpa de Kim Jong-Il e do regime ou seria consequência dos embargos impostos ao país pelos EUA e os vassalos da UE? Ora, essa não é a estratégia preferida do império para com os seus desafetos? Destruir suas economias e depois atacar militarmente?
4) Tido como perigosa para o "ocidente", a Coréia do Norte não se envolveu em conflitos armados desde a década de 50. Suas "ações hostis" foram em resposta às constantes provocações da vizinha Coréia do Sul, que em sua essência, não passa de uma base estadunidense na península. Não existe qualquer prova de que a Coréia do Norte tenha afundado o navio de guerra da Coréia do Sul, apenas teatro e especulação.
5) As armas nucleares da Coréia do Norte são armas exclusivamente para dissuasão. Considerado até mesmo pelos inimigos como extremamente inteligente, Kim Jong-Il percebeu desde muito cedo que a única forma de garantir a soberania da Coréia do Norte seria construindo armas nucleares. Atualmente estima-se que a Coréia do Norte possua cerca de 4 armas nucleares operacionais, é um arsenal respeitável e que barra qualquer intenção belicista de EUA e UE. Se Afeganistão, Iraque e Líbia possuíssem arsenais semelhantes, não teriam sido invadidos.
A milagrosa "propaganda comunista"
Vamos voltar à milagrosa "propaganda comunista", citada como a única responsável por ter transformado Kim Jong-Il em um líder adorado pelo seu povo. O problema em apostar todas as fichas na "propaganda comunista", é que há uma lacuna teórica que não pode ser preenchida.
Afirmar que a "propaganda comunista" (e tão somente ela) transformou Kim Jong-Il em um líder adorado, significa afirmar que a propaganda é onipotente, uma via de mão única onde a mensagem é lançada pelo emissor e recebida pelo receptor sem que este faça qualquer tipo de avaliação. Esse esquema simples foi a base de um modelo teórico conhecido como "teoria da agulha hipodérmica"...isso no século passado, mais especificamente nas década de 20 e 30, em estudos desenvolvidos por teóricos da escola funcionalista norte-americana, ou simplesmente mass comunication research.
A teoria da agulha hipodérmica logo foi desconstruída em estudos posteriores. Na década de 40, um grupo de estudiosos, dentre eles Kurt Lewin e Paul Lazersfeld, perceberam que a comunicação não era um processo linear, e que uma série de fatores atuavam entre o envio da mensagem e a sua recepção. Em outras palavras, os efeitos da propaganda são limitados, logo, um povo não pode adorar um tirano só porque o escuta no rádio, o vê na TV ou lê coisas boas a respeito dele.
Seguindo a mesma lógica a "propaganda capitalista" teria transformado George W. Bush em um herói do "mundo livre" e o neoliberalismo em um modelo econômico perfeito. Claro que isso não aconteceu.
É claro que os jornalistas da grande mídia ocidental conhecem as teorias da comunicação, mas buscam suporte em teorias frágeis e obsoletas, desde que isso seja conveniente aos seus interesses.
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