terça-feira, 27 de março de 2012

Dr. Maltez Fernandes

Dr. Sebastião Maltez Fernandes ( Dr. Matez )

Não tive o privilégio de conviver muito tempo com o meu avô, Dr. Sebastião Maltez Fernandes. As lembranças turvas me levam a um passeio em seus braços, em uma manhã ensolarada no jardim do casarão de Mossoró. Me transportam também para um outro passeio, dessa vez na fazenda da família, a "Guanabara". Com uma das mãos buscava apoio na mão do meu avô, com a outra puxava um brinquedo artesanal, um "carrinho de lata" que teimava em virar, pacientemente ele me acompanhava e me ajudava a desvirar o carrinho. Por último me lembro de entrar em um avião para me despedir do meu avô, ele estava prestes a embarcar para o Rio de Janeiro, onde faria um tratamento de saúde. Percorri o corredor do avião e o encontrei sentado (era o único passageiro), e essa foi a última vez que vi o meu avô com vida. Outros detalhes da vida de Dr. Maltez, me foram passados pelos meus tios, tias e minha mãe.

Felizmente o memorialista Francisco Rodrigues (Tio Chico), genro de Dr. Maltez cuja memória é prodigiosa, traçou uma breve biografia do meu avô. O texto foi publicado em setembro de 2011, na 14ª edição da revista "Oeste", editada pelo Instituto Cultural do Oeste Potiguar - ICOP. Reproduzo então a referida biografia escrita por "Tio Chico", na intenção de disponibilizá-la para todo o mundo, bem como imortalizar a figura de Dr. Maltez, o cidadão íntegro, o empresário, o político e acima de tudo o médico, para quem o juramento de hipócrates não era uma mera formalidade acadêmica, mas um código de ética a ser seguido e respeitado. Certamente um dos homens mais importantes da história de Mossoró e do Rio Grande do Norte.

Final de 1973: "Vovô Maltez" brincando comigo

Dr. Matez Fernades por Francisco Rodrigues da Costa

Sebastião Maltez Fernandes, este seu nome completo. Filho dos agricultores Leonel Fernandes Carneiro de Oliveira e Maria José Fernandes de Oliveira. Nasceu aos 7 de abril de 1904 no sítio Crisolândia, na zona rural de Caraúbas, de propriedade dos seus genitores.

Concluiu o primário no Grupo Escolar Antônio Carlos da cidade de Caraúbas. Como prêmio, pelas boas notas alcançadas, foi convidado para continuar seus estudos no Rio de Janeiro, então Capital do Brasil, onde morava um tio, que lhe ofereceu a grande oportunidade de sua vida. Graduou-se em medicina pela então Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, como médico obstetra.

De volta à terra natal, no início dos anos 30, começou a clinicar. Casou-se em 1938 com Maria de Lourdes Gurgel e tiveram os seguintes filhos: Maria José Gurgel Fernandes, formada pela Escola Doméstica de Natal, (in memoriam), Antônio Maltez Gurgel Fernandes, engenheiro agrônomo, formado pela Universidade Federal do Ceará, (in memoriam), Jaci Gurgel Fernandes, professora formada pela UERN, Gláucio Gurgel Fernandes, médico, formado pela Universidade Federal de Pernambuco, Maria da Conceição Gurgel Fernandes, médica, formada pela Universidade Federal da Paraíba e Maria do Socorro Gurgel Fernandes, médica formada pela Universidade Federal de Pernambuco.


Família: Da direita para a esquerda - Dr. Maltez, Maria José Gurgel, Antônio Maltez (meu pai), Jacy Gurgel, Maria De Lourdes (Vovó), Maria do Socorro e Gláucio Gurgel. 

Com o falecimento dos seus genitores, Dr. Maltez adquiriu, por compra, as partes do terreno que cabiam aos seus irmãos, registrando a nova propriedade com o nome de  fazenda “Guanabara”.

Dr. Maltez – O médico 

Assistir às suas pacientes, quer no período ou não da gravidez, foi seu maior sacerdócio. Não temos o número exato das crianças que vieram ao mundo pelas suas mãos. Queremos crer que, em Mossoró, mais de quinze mil sentiram a clássica palmadinha no bumbum, aplicada pelo caridoso médico. 

Contam coisas interessantes a respeito de doutor Maltez. Ele mesmo me contou dois casos que passo a narrá-los: uma vez olhando um relógio de parede, que marcava 12 horas, viu no mostrador o rosto de um dos seus irmãos. Logo depois recebeu a notícia da morte do ente querido que falecera justo naquela hora.

Numa noite chuvosa, estrada enlameada, orlada de “pereiros” e xiquexiques, o carro dirigido por Luizinho, que também fazia parte da banda musical de Caraúbas, seguia vagarosamente. De repente Dr. Maltez diz para o motorista: “Passe naquela casa iluminada pela luz de lamparina”. No seu interior uma mulherzinha se contorcia em dores. O marido, aflito, saíra em busca de ajuda. Sem se identificar, Dr. Maltez pede para ver a paciente e, em seguida, diz para alguém ferver água. Em poucos instantes, o choro forte de uma criança aliviava as dores da mãe feliz.

D’outra feita, em visita a uma enfermaria repleta de candidatas a mamãe, Dr. Maltez pergunta por que uma delas permanecia ali. Ouviu: “Está esperando para ser cirurgiada”. Era uma vida em jogo. “Se não a levarem logo para a sala de parto, a criança nascerá aqui mesmo” – disse  Dr . Maltez. A paciente livrou-se de ter o ventre cortado pelo bisturi. O médico que a operaria teve um problema no seu automóvel, daí o atraso. Somente em último caso, Dr. Maltez apelava para a cesariana, Zezinha, sua filha, em partos normais, deu ao pai orgulhoso suas primeiras netas, Daniela e Giovanna. Foi  Dr . Maltez quem assistiu a filha por ocasião dos seus dois partos. 

Soube, por Geraldo meu irmão, amigo dos filhos do saudoso casal Evilásio/Francisquinha Dias, que ela fez o seguinte  comentário: “Dr. Maltez quando prognosticava a data do nascimento de uma criança era tiro e queda”. E arrematou: “Foi assim com os meus cinco filhos: Enilce, Célio. Nilma, Clélia e Marcos”. Os dois últimos são médicos e clinicam em Natal.

Adelaide de Jesus Costa, enfermeira e viúva do médico areia-branquense Francisco Fernandes da Costa, não regateou elogios: “Foi uma tranquilidade dar a luz aos meus  filhos: Luiz Henrique, Roberto e Costa Neto. Contei, abaixo de Deus, com as mãos milagrosas do Dr. Maltez”.

De uma mãe preocupada: “Dr. Maltez, minha filha está com um mioma, e, cada vez mais, eu vejo que ele aumenta”. Depois de examinar a mocinha, o experiente médico  disse para a mãe aflita: “Tenha calma, vou cuidar do 'mioma' com carinho”.  Após alguns meses, a mocinha, em vez do mioma, tinha um robusto bebê para amamentar.

Meados de 1946, veio residir em Mossoró. Foi o primeiro diretor da Casa de Saúde e Maternidade Dix-sept Rosado com o Dr. João Marcelino.

Dr. Maltez – O Político

Morava em Caraúbas quando se candidatou pela primeira vez a deputado estadual. Foi por ocasião da redemocratização do País, com a deposição de Getúlio. Conseguiu a eleição pela legenda do Partido Social Progressista, dirigido no Rio Grande do Norte pelo deputado federal Café Filho.

Na campanha eleitoral de 1947, para escolha de um terceiro senador, como aconteceu em todos os estados da federação, recebeu do senador Georgino Avelino (PSD) a seguinte proposta: “Dr. Maltez, deixe o seu dedo correr sobre o mapa do RN. Na cidade indicada, o senhor terá consultório e emprego compensador”. Era uma proposta tentadora. Mas o deputado caraubense teria que apoiar a candidatura do industrial João Câmara ao Senado.  Dr. Maltez, com aquele seu semblante humilde, mas decisivo, agradeceu dizendo: “Senador: prefiro, sem retribuição, acompanhar meu correligionário Café Filho”.

Por falar na sua humildade, abro um parêntese e dou a palavra a um colega seu, o  Dr. Milton Marques de Medeiros, que assim se expressou no prefácio do nosso livro Caminhos de Recordações: “Dr. Maltez Fernandes era uma figura ímpar. Sua humildade até hoje me emociona. Não havia nele soberba nem exibicionismo. Nem tão pouco nos falava em tom professoral. Pelo contrário, tudo nos era transmitido pelo forte exemplo pessoal e através de sábias e sensatas conversas. Amenas, antes de tudo. Somente com o passar do tempo é que fui aquilatando melhor cada ensinamento”.

Em 1950, foi reeleito pela mesma legenda do PSP, obtendo expressiva votação somente em Mossoró. Também foram candidatos a deputado estadual, e tiveram esta cidade como reduto, Carlos Borges de Medeiros e Raimundo Soares de Souza (UDN), Antônio Rodrigues de Carvalho e José Nicodemos da Silveira Martins (PTB) e Francisco Solon Sobrinho (PSP), dentre outros. Dr. Maltez presidiu o Legislativo Estadual de 1953 a 1956.

Em 1954, Café Filho, já presidente da República, traçou um esquema para o seu PSP aqui no Rio Grande do Norte apoiar os candidatos ao Senado: Dinarte Mariz (UDN) e Georgino Avelino (PSD). Em contrapartida, o PSP daria os dois suplentes de senador. E o interessante é que ambos se tornariam titulares. Um, Reginaldo Fernandes, com a eleição de Dinarte para o Governo do Estado em 1955; e o outro, Sérgio Bezerra Marinho, com a morte de Georgino, 1959. Dr. Maltez, seguiu a orientação partidária e apoiou Eider Varela para deputado federal, que foi eleito
.
Em 1958, Café Filho já estava descartado da política. Dr. Maltez, aliou-se a Djalma Maranhão e tentou, sem êxito, voltar à Assembléia Legislativa. Episódio que levou o ex-deputado e ex-presidente da Assembléia Legislativa a encerrar sua carreira, como político.

Dr. Maltez – Sociável

Foi um dos fundadores do Lions Clube de Mossoró; sócio-proprietário do Clube Ipiranga; maçom da Loja 24 de junho.

Juntamente com o seu colega e conterrâneo Dr.Gentil Fernandes, foi um apaixonado pela língua, ESPERANTO, criada pelo médico polonês Ludwig Zamenhof. 

Dr. Maltez - Espirituoso. 

Sempre dizia seus gracejos oportunos, sem constranger a ninguém. Padre Huberto gostava de visitar algumas pessoas. Boquinha da noite ele chega à casa de  Dr. Maltez. e dá-se o seguinte diálogo:

- Vamos sentar Padre Huberto.
- Estou bem, Dr. Maltez. – Respondeu o religioso do alto dos seus quase dois metros.

Passados uns dois minutos, o mesmo convite por parte do médico, com pouco mais de um metro e cinquenta.

- Já disse que estou bem, repetiu o padre.

E dr. Maltez, calmamente: “Eu sei que o senhor está bem. Quem não está sou eu”. Com o pescoço empinado a olhar para o céu.

Certa vez, Zezinha chega para o pai e diz:

- Papai, já estou cansada de embalar Daniela. E ela não dorme de jeito nenhum. Que devo fazer?

E doutor Maltez, sem pestanejar:

- DANI-ELA no berço.

Dr. Maltez – O versejador em família. 

Em Junho de 1934, começou a namorar sua futura esposa, dona Lourdinha. O Apaixonado ofereceu sua foto com uns versinhos: 

"Para lembrar o São João
De trinta e quatro passado
Em que foi meu coração
Para sempre conquistado
À Lourdinha encantadora
Já dele possuidora
Dou essa fotografia
Lembrança daquele dia" 

De férias na fazenda Guanabara, todos juntos ao redor da mesa de refeições, não raro, recitávamos essas oito linhas. Era uma alegria geral.

Para Socorro, a filha caçula, quando lhe rasgou a gengiva o primeiro dentinho, o pai coruja não perdeu tempo, compondo esta quadrinha: 

"Tenho um dentinho
Que é danado pra morder
Se você não acredita
Bote o dedo só pra ver."

Aos domingos, a Rádio difusora de Mossoró, levava ao ar o programa “Manhã Festiva”, animado pelo saudoso Genildo Miranda. A meninada, de seis a oito anos, comparecia para recitar seus versinhos. Conceição, filha de  Dr. Maltez, ganhou um prêmio, ao declamar uma quadrinha de autoria do pai.

"Sou forte e sou bonita
Já sou quase uma mocinha
Me chamam de senhorita
Mas eu sou Miss Arrozina."

Com Gláucio, não foi diferente. Queria ser Tarzan e vivia exibindo sua musculatura. Foi ao palco da Difusora e faturou o prêmio, recitando a quadrinha:

"Essa marra meus senhores
Que tanto agrada as meninas
Devo somente aos fatores
Da saborosa Arrozina”.

Dr. Maltez - o Empreendedor

Em 1966, com os médicos Leodécio Fernandes Néo, César Augusto de Alencar, Eilson Gurgel do Amaral, construiu a Casa de Saúde e Maternidade Santa Luzia. Depois outros médicos se associaram ao empreendimento: Clóvis Augusto de Miranda, José Mario Gurgel e José Anchieta Fernandes.

Dr. Maltez também atendia pela  Carteira de Acidente do Trabalho, do INPS. Muitos acidentados tiveram nele o médico caridoso e justo. Prazos marcados para o pronto restabelecimento da saúde de cada um doente. Alguns pacientes, às vezes, queriam enganar a boa índole do médico. Nos ferimentos botavam leite de mamão ou usavam de outro artifício para prolongar o benefício. Dr. Maltez os advertia e, muitas vezes, suspendia o tratamento, dando “alta”, para coibir o condenável abuso.

Dr. Maltez deixou saudades... 

No final da vida contraiu uma enfermidade que o pôs de cama por algum tempo. Certa tarde,vai visitá-lo o  Dr. Tarcísio Maia, então governador do estado, que foi oferece seus préstimos ao colega e amigo de muitos anos.

Levado para o Rio de Janeiro,  Dr. Maltez ficou internado no Hospital da Lagoa. Não saiu de lá com vida. Faleceu aos 12 de julho de 1978. Foi sepultado em Mossoró, no cemitério São Sebastião.

Anos depois de sua morte, eu soube que uma ex-paciente dele guardava uma receita médica. Confessou que muitas vezes usou, com sucesso, o mesmo medicamento prescrito por Dr. Maltez.

Em rápidas linhas, o perfil biográfico do médico íntegro, do cidadão honrado e do sogro amigo. O inesquecível Dr. Sebastião Maltez Fernandes. 

3 comentários:

  1. Muito Interessante, como membro da família Maltez, gosto de sempre está atualizada com as informações família!!

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  2. Grande Allan, acho que você tem que colocar da direita para esquerda. Confira.

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    1. Realmente Mendes, só agora percebi o erro. Obrigado.

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