segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Aileen Wuornos: Vida e morte de uma assassina em série


Quando conhecemos a história de algum assassino em série a tendência é condená-lo sumariamente, nunca pensamos nos fatos anteriores ao primeiro assassinato. É de fato um exercício difícil, mas  é exatamente o que o cineasta inglês Nick Broomfield fez em dois documentários que produziu sobre Aileen Carol Wuornos, considerada a primeira assassina em série dos Estados Unidos. Diferentemente do filme Monster, desejo assassino (2004), brilhantemente interpretado por Charlize Theron e que lhe rendeu o oscar de melhor atriz ao encarnar Aileen; os documentários "Aileen Wuornos: The Selling Of a Serial Killer" (1993) e "Aileen: Life and Death of a Serial Killer" (2003) fazem uma exploração detalhada da vida de Aileen Wuornos, da infância até os momentos que antecederam à sua execução por injeção letal. Os trabalhos de Nick Broomfield nos fazem refletir sobre o que se poderia esperar de alguém como Aileen, que teve uma vida marcada pela rejeição, abandono, abusos, prostituição e violência. O meu texto, baseia-se nos documentários já citados.  

Infância e adolescência

Aileen nasceu em 29 de fevereiro de 1956, de um parto pélvico complicado. Sua mãe biológica chegou a especular que o comportamento violento da filha seria resultado de sequelas ligadas ao parto. Os 9 meses em que esteve no útero da mãe foram os únicos momentos que passou com ela. A mãe biológica a abandonou logo depois. Criada pelo pai e por parentes, teve uma infância desregrada e aos 13 anos já estava grávida. Após ter a criança e doá-la para adoção, Aileen foi expulsa de casa e obrigada a viver em um bosque, onde dormia em carros abandonados no local. Foi nessa época que começou a se prostituir nas estradadas. Quando tinha a "sorte" de pegar um cliente "bom", ainda conseguia tomar um banho e dormir em uma cama, protegida do frio rigoroso do estado do Michigan, EUA.

Assassinatos em série

Na Flórida, onde morava, Aileen conheceu Tyra Moore, o grande amor da sua vida e talvez o único. Uma das hipóteses é que ela tenha começado a matar para sustentar o estilo de vida de bebedeiras e noitadas da namorada. Como a única fonte de renda do casal eram os programas de Aileen, ela precisou de uma "fonte de renda extra" e resolveu buscá-la no crime. O seu modus operandi era simples, ela se oferecia como prostituta nas estradas, levava os homens para um bosque ermo, lá chegando sacava a sua arma, atirava neles, roubava o dinheiro e os carros. Foi assim que Aileen assassinou 7 clientes até ser presa. 

Ao contrário da maioria dos assassinos em série, a motivação para os crimes não era o prazer de matar, pelo menos essa é a impressão que se tem nos depoimentos e entrevistas dela. A motivação maior seria realmente o dinheiro e a necessidade de satisfazer Tyra. No documentário "Aileen: Life and Death of a Serial Killer" (2003) ela chega a sugerir isso, inclusive.

Outra parte controversa da vida de crimes de Aileen é o envolvimento de Tyra. É de conhecimento público que ela sabia dos assassinatos e que nada fez para impedi-los, porém a sua participação direta nos crimes nunca pode ser comprovada.

Prisão, oportunismo, "justiça", loucura e morte

Depois de presa as coisas continuaram como sempre foram para Aileen. Foi abandonada por Tyra, a namorada, que além de depor contra ela tentou negociar os direitos de uma futura produção de Hollywood e para tanto uniu-se a policiais corruptos que queriam faturar com a história da primeira assassina em série dos EUA. Fragilizada, caiu nas garras de dois oportunistas, o seu advogado de defesa e uma mulher, que se dizia "cristã", comovida com a história de vida de Aileen e resolveu "adotá-la". Ambos, o advogado e a "mãe" de Aileen, começaram a cobrar para dar entrevistas e para facilitar o acesso à ela na prisão. A peça de defesa apresentada pelo advogado foi algo entre o bizarro e o amador. Em momento algum ele tentou, como é dever do defensor, tornar a pena mais branda (no caso, evitar a pena de morte), limitou-se a aconselhar sua cliente a se declarar culpada sob a alegação que era dela o desejo de morrer. Parece que o advogado ignorou deliberadamente o estado mental de sua cliente e os efeitos psicológicos sofridos por alguém no corredor da morte.

Um dia antes de ser executada Aileen Wurnos ainda concedeu uma última entrevista a Nick Broomfield. Durante a conversa ela mostrou-se visivelmente fora da realidade, falando coisas desconexas, completamente enlouquecida. É espantoso saber que um dia antes da entrevista ela foi avaliada por uma junta psiquiátrica que a considerou "psicologicamente apta". Se sua sanidade tivesse sido contestada a execução teria sido adiada. Se foi estratégia da defesa, nunca vamos saber, fato é que Aileen nunca demonstrou ter medo de morrer.

Não obstante os crimes que cometeu, os documentários de Nick Broomfield humanizam a assassina em série Aileen Wurnos, fazem uma autópsia de sua vida desgraçada, revelam os interesses financeiros e políticos por trás de qualquer caso que ganhe notoriedade e revelam uma justiça que não é muito diferente da brasileira, leia-se, uma justiça que existe para punir com rigor os desfavorecidos, e somente eles.

Ambos os dovumentários, Aileen Wuornos: The Selling Of a Serial Killer e Aileen: Life and Death of a Serial Killer, de Nick Broomfield, estão disponíveis na Netflix.

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